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Mineira Beatriz Alvarenga é referência nacional para o ensino da física

Tive o privilégio de ser sua aluna ! / Grande mulher !

 08/03/2016   Por: Por: Luisa Brasil
  Mineira Beatriz Alvarenga é referência nacional para o ensino da física

Menos decoreba e mais prática: Beatriz exibe as "geringonças" que sempre usou para ensinar

Aos 89 anos, a professora Beatriz Al­varenga anda pela casa da Rua Ponte Nova, na Floresta, exibindo algumas de suas "geringonças" ? como um par de óculos 3D, um pássaro de plástico e uma esfera de Hoberman. O imóvel, que ela comprou enquanto ainda ministrava aulas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fica ao lado de sua própria residência e está inteiramente ocupado pelos objetos que utilizou ao longo da carreira para fazer com que seus alunos compreendessem, na prática, as lições da física. Vinte e quatro anos depois de deixar a docência, a professora ainda recebe ex-colegas e estudantes para aulas particulares em seu grande laboratório. À primeira vista, o nome de Beatriz pode até soar desconhecido, mas quem penou para aprender as leis de Newton ? que descrevem o comportamento de corpos em movimento e foram formuladas pelo cientista inglês Isaac Newton ? certamente vai lembrar que ele estampava a capa dos quase sempre temidos livros da disciplina durante os três anos do ensino médio. Em parceria com o colega Antônio Máximo, ela é autora da coleção Física ? Contextos e Aplicações, que até 2010 se chamava Curso de Física, um best-seller entre os livros didáticos brasileiros, em circulação desde 1970. Adotada em escolas públicas e privadas de todo o país, a obra em três volumes, que já foi traduzida para o espanhol, vendeu 4 milhões de exemplares nos últimos três anos.

Beatriz não é formada em física, embora seja uma das mais conceituadas estudiosas da matéria. Nascida em Santa Maria de Itabira, a 133 quilômetros da capital, ela se mudou aos 10 anos para Belo Horizonte. O pai, o farmacêutico Trajano Procópio de Alvarenga, veio em busca de escolas melhores para os doze filhos. Aos 17 anos, Beatriz fez vestibular para engenharia civil, na Escola Livre de Engenharia, que anos mais tarde seria incorporada à UFMG. Na época nem havia ensino superior de física. "Engenharia era o único curso que envolvia matemática", lembra. Em sua turma, todos os colegas eram homens, o que não a deixava constrangida. Ela logo descobriu que a situação lhe renderia privilégios. "Na sala de aula, colocaram uma cadeira mais próxima do professor para mim." À frente de seu tempo, Beatriz contrariou os padrões também na vida pessoal: casou-se tarde, aos 39 anos, bem depois da maior parte de suas amigas. "Quando recebi o pedido, fui logo avisando que não tinha tempo para ter filhos", conta ela, que ainda vive com o professor de português aposentado Celso Álvares. "Eu era muito sobrecarregada, dava aulas da manhã até a noite."

Sucesso editorial

1,3 milhão de exemplares por ano é a média de vendas De física - Contextos e aplicações desde 2009

4 editoras já publicaram a coleção, lançada em 1970

Fonte: Antônio Máximo

Quando se formou engenheira, em 1945, Beatriz começou a lecionar física em dois colégios tradicionais da cidade, o Santa Maria e o Estadual Central. Logo foi convidada para ser auxiliar dos então chamados catedráticos na universidade. Não saiu mais de lá. Após fazer especializações no exterior, ela se convenceu de que era preciso aplicar uma metodologia mais experimental na sala de aula e tornou-se ativista da causa, cobrando melhorias para o ensino da disciplina no país. Em 1968, foi uma das responsáveis pela criação do departamento de física dentro do Instituto de Ciências Exatas. Até aquele momento, o curso funcionava na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Foi nessa ocasião que o colega Antônio Máximo lhe sugeriu que escrevessem, em parceria, um livro didático. As obras disponíveis, segundo ele, eram maçantes, recheadas de fórmulas matemáticas e com pouca ênfase na aplicação. "A qualidade dos livros era muito ruim, qualquer coisa que a gente fizesse seria melhor", diz Máximo, hoje com 71 anos. Apesar da argumentação que acompanhou o convite, a professora relutou. Embora fosse muito respeitada na comunidade aca­­dêmica, não estava segura de que tivesse qualificação suficiente para a empreitada. Vencida a resistência, deu início aos cansativos serões no fim das aulas para escrever os três volumes da coleção. "Trabalhamos sem parar por mais de um ano", recorda Beatriz.

Tanto e

Menos decoreba e mais prática: Beatriz exibe as "geringonças" que sempre usou para ensinar

Aos 89 anos, a professora Beatriz Al­varenga anda pela casa da Rua Ponte Nova, na Floresta, exibindo algumas de suas "geringonças" ? como um par de óculos 3D, um pássaro de plástico e uma esfera de Hoberman. O imóvel, que ela comprou enquanto ainda ministrava aulas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fica ao lado de sua própria residência e está inteiramente ocupado pelos objetos que utilizou ao longo da carreira para fazer com que seus alunos compreendessem, na prática, as lições da física. Vinte e quatro anos depois de deixar a docência, a professora ainda recebe ex-colegas e estudantes para aulas particulares em seu grande laboratório. À primeira vista, o nome de Beatriz pode até soar desconhecido, mas quem penou para aprender as leis de Newton ? que descrevem o comportamento de corpos em movimento e foram formuladas pelo cientista inglês Isaac Newton ? certamente vai lembrar que ele estampava a capa dos quase sempre temidos livros da disciplina durante os três anos do ensino médio. Em parceria com o colega Antônio Máximo, ela é autora da coleção Física ? Contextos e Aplicações, que até 2010 se chamava Curso de Física, um best-seller entre os livros didáticos brasileiros, em circulação desde 1970. Adotada em escolas públicas e privadas de todo o país, a obra em três volumes, que já foi traduzida para o espanhol, vendeu 4 milhões de exemplares nos últimos três anos.

Beatriz não é formada em física, embora seja uma das mais conceituadas estudiosas da matéria. Nascida em Santa Maria de Itabira, a 133 quilômetros da capital, ela se mudou aos 10 anos para Belo Horizonte. O pai, o farmacêutico Trajano Procópio de Alvarenga, veio em busca de escolas melhores para os doze filhos. Aos 17 anos, Beatriz fez vestibular para engenharia civil, na Escola Livre de Engenharia, que anos mais tarde seria incorporada à UFMG. Na época nem havia ensino superior de física. "Engenharia era o único curso que envolvia matemática", lembra. Em sua turma, todos os colegas eram homens, o que não a deixava constrangida. Ela logo descobriu que a situação lhe renderia privilégios. "Na sala de aula, colocaram uma cadeira mais próxima do professor para mim." À frente de seu tempo, Beatriz contrariou os padrões também na vida pessoal: casou-se tarde, aos 39 anos, bem depois da maior parte de suas amigas. "Quando recebi o pedido, fui logo avisando que não tinha tempo para ter filhos", conta ela, que ainda vive com o professor de português aposentado Celso Álvares. "Eu era muito sobrecarregada, dava aulas da manhã até a noite."

Sucesso editorial

1,3 milhão de exemplares por ano é a média de vendas De física - Contextos e aplicações desde 2009

4 editoras já publicaram a coleção, lançada em 1970

Fonte: Antônio Máximo

Quando se formou engenheira, em 1945, Beatriz começou a lecionar física em dois colégios tradicionais da cidade, o Santa Maria e o Estadual Central. Logo foi convidada para ser auxiliar dos então chamados catedráticos na universidade. Não saiu mais de lá. Após fazer especializações no exterior, ela se convenceu de que era preciso aplicar uma metodologia mais experimental na sala de aula e tornou-se ativista da causa, cobrando melhorias para o ensino da disciplina no país. Em 1968, foi uma das responsáveis pela criação do departamento de física dentro do Instituto de Ciências Exatas. Até aquele momento, o curso funcionava na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Foi nessa ocasião que o colega Antônio Máximo lhe sugeriu que escrevessem, em parceria, um livro didático. As obras disponíveis, segundo ele, eram maçantes, recheadas de fórmulas matemáticas e com pouca ênfase na aplicação. "A qualidade dos livros era muito ruim, qualquer coisa que a gente fizesse seria melhor", diz Máximo, hoje com 71 anos. Apesar da argumentação que acompanhou o convite, a professora relutou. Embora fosse muito respeitada na comunidade aca­­dêmica, não estava segura de que tivesse qualificação suficiente para a empreitada. Vencida a resistência, deu início aos cansativos serões no fim das aulas para escrever os três volumes da coleção. "Trabalhamos sem parar por mais de um ano", recorda Beatriz.

Tanto esforço foi recompensado. A primeira edição saiu com o selo do Centro de Ensino de Ciências e Matemáticas de Minas Gerais, ligado à universidade. Em mais de quatro décadas, já foram publicadas sete edições por quatro editoras. A obra passou também pela Bernardo Álvares e pela Harbra antes de chegar, em 1995, à Scipione, responsável pela última revisão e pela mudança do título, no ano passado. Só o governo federal adquiriu, neste ano, 900 000 exemplares para distribuir na rede pública. "O importante é despertar o aluno de uma maneira agradável para que ele não ache que estudar física é apenas decorar fórmulas e resolver problemas", ensina a professora. Ainda hoje, ela aproveita todas as oportunidades que surgem para fazer sua catequese: defender a importância da física aplicada dentro da sala de aula. "Para compreender melhor a sua vida e tudo o que faz, você tem de entender um pouco de física", resume, repleta de razão.

sforço foi recompensado. A primeira edição saiu com o selo do Centro de Ensino de Ciências e Matemáticas de Minas Gerais, ligado à universidade. Em mais de quatro décadas, já foram publicadas sete edições por quatro editoras. A obra passou também pela Bernardo Álvares e pela Harbra antes de chegar, em 1995, à Scipione, responsável pela última revisão e pela mudança do título, no ano passado. Só o governo federal adquiriu, neste ano, 900 000 exemplares para distribuir na rede pública. "O importante é despertar o aluno de uma maneira agradável para que ele não ache que estudar física é apenas decorar fórmulas e resolver problemas", ensina a professora. Ainda hoje, ela aproveita todas as oportunidades que surgem para fazer sua catequese: defender a importância da física aplicada dentro da sala de aula. "Para compreender melhor a sua vida e tudo o que faz, você tem de entender um pouco de física", resume, repleta de razão.