Lava Jato: posto que originou operação ganhou R$ 1 milhão de deputados

Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

Na manhã de 17 março de 2014, veículos estacionavam em um dos mais movimentados postos de gasolina do centro de Brasília. Ao invés de procurar as bombas de combustível para abastecer, as viaturas pretas da Polícia Federal (PF) cumpriam mandados contra uma enorme organização criminosa acusada de lavagem de dinheiro.

 

Nascia ali, no Posto da Torre, a Operação Lava Jato, considerada como o maior processo de investigação contra crimes de corrupção na história do Brasil. No mesmo dia, a Câmara dos Deputados recebia uma nota fiscal no valor de R$ 65,06 para pagar a gasolina de um parlamentar que abasteceu no local.

 

Os deputados federais continuaram a frequentar o estabelecimento que funcionou como o epicentro do escândalo criminoso. Políticos gastaram 7.214 vezes no Posto da Torre desde aquela manhã nebulosa de março de 2014 até o fim do ano passado. Para isso, cerca de R$ 1,12 milhão de dinheiro público foi repassado para a empresa.

 

Há gastos de membros do alto escalão do governo, outros completamente desconhecidos e, inclusive, alguns de parlamentares investigados pela própria Operação Lava Jato. Os dados e as informações fazem parte de um levantamento exclusivo realizado pelo Metrópoles.

 

Compras no Posto da Torre
O Posto da Torre fica localizado próximo ao Eixo Monumental, via que liga os principais espaços e construções políticas do país. O estabelecimento, que é um dos mais movimentados no centro da capital, está a 4 km de distância do Congresso Nacional e abriga também outros serviços, como lanchonetes.

 

Mais de 99% das compras feitas pelos deputados no local foram com combustíveis, totalizando R$ 1.125.681.53 durante o período de mais de uma década. Além da quantia, os congressistas passaram no posto 7 vezes para se alimentar e, em outras três oportunidades, compraram publicações de revistas ou jornais. Há ainda dois casos de valores incomuns que foram descritos como “divulgação parlamentar” e “consultorias”.

 

Quando consideramos apenas o período em que ocorreu a Operação Lava Jato, entre março de 2014 e fevereiro de 2021, os deputados gastaram R$ 728.788,78 em 5.370 oportunidades.

 

Mais de R$ 1 milhão em cota parlamentar

Para que o posto de combustível recebesse mais de R$ 1 milhão, mais de 780 deputados usaram o dinheiro da cota parlamentar de, pelo menos, três legislaturas diferentes. Os valores envolvem 39 siglas, sendo de todos os espectros políticos

 

O dinheiro público foi repassado por meio da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar. O benefício é utilizado pelo deputado para custear despesas típicas do exercício do mandato parlamentar, como aluguel de escritório de apoio ao mandato, passagens aéreas e combustível. Os valores concedidos vão de R$ 36 mil até R$ 50 mil, variando de acordo com a localidade do político.

 

Diante disso, vale ressaltar que a utilização, dentro das normas estabelecidas pela Câmara dos Deputados, da cota em qualquer posto de combustíveis está dentro da legalidade e não configura alguma irregularidade. Em relação ao Posto da Torre, os dados só indicam que o estabelecimento comercial seguiu recebendo quantias públicas e sendo frequentado por políticos mesmo com notável envolvimento na Operação Lava Jato.

 

O posto da Operação Lava Jato
A Operação Lava Jato foi deflagrada em 2014 pelo Ministério Público Federal (MPF) do estado do Paraná e revelou um vasto esquema de corrupção na Petrobras e em grandes obras de infraestrutura. Considerada a maior investigação anticorrupção já conduzida na história do Brasil, atingiu centenas de políticos e algumas das maiores empresas do país, principalmente estatais e empreiteiras.

 

A operação começou a partir de uma investigação sobre conexões entre doleiros e políticos. Alberto Youssef, conhecido de outro escândalo, o caso Banestado, foi preso em março de 2014 sob suspeita de intermediar pagamentos de propina entre políticos, empreiteiras e dirigentes da Petrobras. Pouco depois, também foram presos o ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa e outros integrantes do esquema.

 

A operação teve, ao todo, 79 fases e durou até 2021. No total, segundo o MPF, foram 163 prisões temporárias, 132 prisões preventivas, 1.450 buscas e apreensões, 211 conduções coercitivas, 35 ações de improbidade administrativa, dois acordos de colaboração homologados no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), 138 acordos homologados no STF.

 

A Lava Jato gerou 553 denunciados, 723 pedidos de cooperação internacional, R$ 4,3 bilhões devolvidos aos cofres públicos, R$ 2,1 bilhões previstos em multas compensatórias decorrentes de acordos de colaboração, R$ 12,7 bilhões em multas compensatórias de acordos de leniência, R$ 14,7 bilhões previstos para serem recuperados e R$ 111,5 milhões em renúncias voluntárias de réus.

 

Com informações do Metrópoles

Compartilhe:

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn

A AUTORA

Editora do Blog da Renata, a jornalista Renata Gondim tem atuação de mais de vinte anos na cobertura política de Pernambuco e hoje é uma das principais vozes femininas e produtora de conteúdo na área, destacando-se por sua atuação nas redes sociais. Foi correspondente em Brasília (DF) pela Agência Nordeste, na cobertura dos fatos do Congresso Nacional, e repórter Sênior de Política e colunista interina no jornal Folha de Pernambuco. É comentarista política da Rádio Tamandaré 890 AM, no quadro Provérbios da Política, com participações especiais como convidada também em outras emissoras do Estado e pela TV Nova Nordeste.

 

No segmento da assessoria governamental, foi Secretária de Comunicação e Relações Institucionais da Prefeitura de São Lourenço da Mata (2008-2014), na Região Metropolitana do Recife (RMR); e assessora de comunicação da Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI). Possui especialização em Marketing Eleitoral.

 

VÍDEOS

MAIS LIDAS

1

Ex-prefeito Hildo Hacker segue com direitos políticos suspensos

1

A partir de 2025, vereadores do Recife vão receber até R$ 37,8 mil em salário e “penduricalhos”

1

Já diz o ditado: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai à Maomé”

1

Miguel Coelho firma compromisso por hospital regional em Ipojuca

1

“Serei a senadora das mulheres, da educação, da cultura, do emprego e oportunidade”

A AUTORA

Renata Gondim é jornalista desde 2004. Foi repórter da editoria de Política da Folha de Pernambuco e colunista interina da Folha Política. Em Brasília, foi correspondente da Agência Nordeste no Congresso Nacional. Nos últimos anos, dedicou-se à assessoria de comunicação governamental. De volta à cobertura jornalística e aos bastidores da informação, agora com um blog autoral, assume a missão de combater as fake news e a manipulação de conteúdo, trazendo para você os principais fatos da política e temas de interesse da sociedade pernambucana.

 

Contato: renata@blogdarenata.com.br

VÍDEOS

MAIS LIDAS

1

Ex-prefeito Hildo Hacker segue com direitos políticos suspensos

1

A partir de 2025, vereadores do Recife vão receber até R$ 37,8 mil em salário e “penduricalhos”

1

Já diz o ditado: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai à Maomé”

1

Miguel Coelho firma compromisso por hospital regional em Ipojuca

1

“Serei a senadora das mulheres, da educação, da cultura, do emprego e oportunidade”