
Protestos simultâneos realizados por carroceiros causaram engarrafamento no Recife e em Olinda na manhã desta segunda-feira (18). Na capital pernambucana, o trânsito ficou travado após os manifestantes atearem fogo a entulhos e interditarem a Ponte José de Barros Lima, no sentido Boa Viagem, e as avenidas Norte, Abdias de Carvalho, Recife e Caxangá.
Essas manifestações dos carroceiros aconteceram dois meses após o protesto simultâneo que interditou várias vias do Recife em 16 de junho. Eles questionam a aplicação da Lei Municipal nº 17.918/2013, sancionada há 12 anos pelo então prefeito Geraldo Júlio e que proíbe a circulação de veículos de tração animal e a condução de animais com carga.
A Avenida Agamenon Magalhães ficou com várias fileiras de carros, ônibus e motos parados no sentido Zona Sul da capital pernambucana. Passageiros do transporte coletivo desceram e seguiram caminhando pela via. A fumaça podia ser vista a distância. O Corpo de Bombeiros informou que foi acionado por volta das 6h30 e enviou uma viatura de combate a incêndio para o local.
Também foram registrados outros pontos de protesto dos carroceiros, todos com objetos em chamas interditando as seguintes vias:
Cruzamento das avenidas Abdias de Carvalho e do Forte, nos Torrões;
Cruzamento das avenidas Norte e João de Barros, na Encruzilhada;
Avenida Agamenon Magalhães, em frente à reitoria da Universidade de Pernambuco (UPE), em Santo Amaro;
Avenida Recife, após o Hospital do Idoso, no sentido Aeroporto do Recife, em Areias;
Avenida Caxangá, embaixo do viaduto da BR, no sentido Centro do Recife.
Após o fim dos protestos nesses pontos, os carroceiros foram até a Câmara Municipal do Recife, na Boa Vista, no Centro da cidade. Representantes deles foram recebidos pelo presidente da Câmara, o vereador Romerinho Jatobá (PSB). Em seguida, os manifestantes se concentraram próximo à Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), localizada no mesmo bairro.
O g1 entrou em contato com a Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) para saber se equipes foram aos locais dos protestos para controlar o fluxo de veículos, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
Também ocorreu um protesto em Olinda, com interdição feita pelos carroceiros na Avenida Pan-Nordestina, no bairro de Ouro Preto. De acordo com a prefeitura, esse bloqueio foi desfeito e o fluxo de veículos liberado antes das 9h.
Impasse com a prefeitura do Recife
A prefeitura do Recife realizou um cadastro, que aconteceu até 30 de junho, para contabilizar os animais utilizados, identificar os condutores de veículos de tração animal e dar apoio na recolocação no mercado de trabalho.
Segundo a gestão municipal, naquela fase do censo, o animal e a carroça foram cadastrados e identificados, mas não apreendidos. Neste novo protesto dos carroceiros, a categoria denuncia que não há diálogo com a prefeitura.
Segundo a rede Brasil Pela Tração Animal, em uma publicação nas redes sociais, “as vias de diálogo foram buscadas, mas não foram abertas”. Os carroceiros e criadores de animais de grande porte para transporte afirmam que a “lei é arbitrária, onde a mesma coloca pais de família na lista do desemprego e seus animais no abatedouro”.
“Nós temos como organizar. Se a gente acabar com essas carroças hoje, vão todos para o abate. Então, a gente quer continuar com os nossos cavalos porque a gente tem uma tradição, a gente tem amor aos nossos cavalos. Tem pessoas que têm o animal há 19 anos”, disse Marcos Batista de Moura, representante dos carroceiros do Recife.
Procurada pelo g1, a prefeitura do Recife afirmou que:
“a realização do cadastramento dos carroceiros teve a finalidade de identificar tutores e animais, a fim de encaminhá-los para os benefícios do Programa Gradual de Retirada de Animais de Veículos de Tração Animal”;
“o censo foi construído para proporcionar uma transição segura para os carroceiros e as famílias que dependem dos veículos de tração animal, uma vez que o seu uso será totalmente proibido a partir do dia 31 de janeiro de 2026”;
“aqueles que atenderem aos requisitos previamente estabelecidos, incluindo o cadastro no censo e a habilitação para os benefícios, estarão aptos a receber indenização pela entrega voluntária do animal e da carroça”;
“além da indenização, terão acesso a uma rede de qualificação profissional e apoio ao empreendedorismo, este último por meio do CredPop Recife, ao encaminhamento e assistência a vagas de emprego pelo GO Recife”;
também está prevista “a disponibilização de vagas para compor a equipe de limpeza urbana da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) e a disponibilização de veículo alternativo”.
Reivindicações dos carroceiros
Os carroceiros informaram que realizam esses protestos para reivindicar os seguintes pontos:
Criação de leis em conjunto com a categoria após a revogação da Lei Municipal nº 17.918/2013.
Criação de políticas públicas para o bem-estar dos animais de grande porte, como vacinação, atendimento veterinário de urgência, emergência e atendimentos periódicos.
Treinamentos e instrução de trânsito que sejam realizados pela CTTU, visando à capacitação dos condutores de veículos de tração animal para que possa se deslocar no Recife de forma correta e segura.
Criação da carta de condução de veículos de tração animal (carta cocheiro), a ser disponibilizada de forma gratuita pela CTTU.
Implantação de um sistema que possibilite fiscalizar os veículos de tração animal através do emplacamento daqueles que são tracionados por animais de grande porte a fim de identificar possíveis ocorrências de maus-tratos.
Obrigatoriedade do registro dos animais de grande porte, mediante chip de identificação, a ser disponibilizado gratuitamente.
Criação de um decreto que estenda o prazo para circulação dos veículos de tração animal e a condução de animais com cargas no Recife.
Flexibilidade nas exigências para liberação dos animais apreendidos, desde que sua apreensão não seja por motivos de maus-tratos.
Criar um banco de ração animal e medicamentos subsidiado.
Implantar a carteira de saúde animal, possibilitando a realização de exames periódicos.
Em entrevista ao vivo no NE1, o secretário de Planejamento e Gestão do Recife, Jorge Vieira, negou que a Lei Municipal nº 17.918/2013 será revogada.
“A prefeitura não considera essa possibilidade. É uma lei de 2013 regulamentada em 2019. A gente vem em discussões com a categoria nestes últimos três anos, foram várias reuniões. O ambiente urbano de uma metrópole do Recife não é apropriado para o trânsito de cavalos e de animais de grande porte por conta do asfalto quente, carros trafegando em alta velocidade, ausência de zona rural para eles ficarem”, afirmou Jorge.
Com informações do G1











